O
CRAQUE SEM IDADE
Quando acabou a etapa inicial do
jogo Brasil x Paraguai, o placar acusava um lírico, um platônico 0 x 0. Ora, o
empate é o pior resultado do mundo. O torcedor sente-se roubado no dinheiro da entrada
e inclinado a chamar os 22 jogadores, o juiz e os bandeirinhas de vigaristas.
Acresce o seguinte: — de todos os empates o mais exasperante é o de 0 x 0. Essa
virgindade desagradável e irredutível do escore já humilhava o público e, ao mesmo
tempo, o enfurecia.
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"The pre-professional soccer". Gloria Coker. |
Eis a verdade: — a partir do momento
em que se anunciou Zizinho, a partida estava automática e fatalmente ganha.
Portanto, público, juiz, bandeirinhas e os dois times podiam ter se retirado, podiam
ter ido para casa. Pois bem: — veio o jogo. Ora, o primeiro tempo
caracterizara-se por uma esterilidade bonitinha. Nenhum gol, nada. Mas a
presença de Zizinho, por si só, dinamizou a etapa complementar, deu-lhe
caráter, deu-lhe alma, infundiu-lhe dramatismo. Por outro lado, verificamos
ainda uma vez o seguinte: — a bola tem um instinto clarividente e infalível que
a faz encontrar e acompanhar o verdadeiro craque. Foi o que aconteceu: — a
pelota não largou Zizinho, a pelota o farejava e seguia com uma fidelidade de
cadelinha ao seu dono. (Sim, amigos: — há na bola uma alma de cachorra.)
No fim de certo tempo, tínhamos a
ilusão de que só Zizinho jogava. Deixara de ser um espetáculo de 22 homens,
mais o juiz e os bandeirinhas. Zizinho triturava os outros ou, ainda, Zizinho afundava
os outros numa sombra irremediável. Eis o fato: — a partida
foi um show pessoal e intransferível.
E, no entanto, a convocação do
formidável jogador suscitara escrúpulos e debates acadêmicos. Tinha contra si a
idade, não sei se 32, 34, 35 anos. Geralmente, o jogador de 34 anos está gagá
para o futebol, está babando de velhice esportiva. Mas o caso de Zizinho mostra
o seguinte: — o tempo é uma convenção que não existe nem para
o craque, nem para a mulher bonita. Existe para o perna-de-pau e para o bucho.
Na intimidade da alcova, ninguém se lembraria de pedir à rainha de Sabá, a
Cleópatra, uma certidão de nascimento. Do mesmo modo, que importa a nós tenha
Zizinho dezessete ou trezentos
anos, se ele decide as partidas? Se a bola o reconhece e prefere?
No jogo Brasil x Paraguai, ele
ganhou a partida antes de aparecer, antes de molhar a camisa, pelo
alto-falante, no intervalo. Em último caso, poderá jogar, de casa, pelo
telefone.
(Nelson
Rodrigues, in "À sombra das chuteiras imortais")
* Brasil
3 x 0 Paraguai, 13/11/1955, no Maracanã. Zizinho fez dois gols e deu o passe para Escurinho marcar o seu.
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